segunda-feira, 7 de julho de 2014

O dilema da beleza, pela última vez (espero)

Por um lado, para mim é muito claro que espera-se que as mulheres gastem muito mais tempo, dinheiro e energia em sua aparência do que os homens. Por outro lado, a gente tem de viver nesse mundo, e há mulheres que de fato têm prazer em atividades relativas a moda/maquiagem. Parte do movimento feminista se recusa a se conformar aos padrões estabelecidos pelo patriarcado (o que eu acho validíssimo), e isso é causa de muita briga e discussão. Tem muita moça que acredita na igualdade de gêneros, mas não se intitula feminista porque acha que o movimento não permite que ela passe esmalte.

Depois de muito ler e quebrar a cabeça a respeito, acho, como várias outras mulheres, que passar esmalte não é feminista, mas também não é necessariamente anti. Não vamos nos iludir, mas também não vamos nos massacrar (ou massacrar as colegas). Coerência perfeita seria ótimo, mas a vida é complexa e nós também.

Dito isso, acredito que é importante termos consciência de que sim, espera-se que as mulheres gastem muito mais tempo, dinheiro e energia em sua aparência e isso é uma sacanagem, porque a gente poderia estar gastando isso tudo em muitas outras atividades divertidas ou lucrativas. (Sem falar que, se você segue as regras desse jogo, é uma fútil; se não segue, é uma baranga. Não tem como ganhar, gente!). Então a minha estratégia é:

1) não julgo mulheres pela aparência, ponto (é um exercício constante, porque a mídia e a sociedade ensinam que o primeiro objetivo na vida da mulher é ser bonita, mas sigo me esforçando e aprendendo).

2) evito revistas, sites e programas que só mostram mulheres dentro do padrão de beleza (é difícil, viu?). Estou tentando "destreinar" o olhar.

3) encaro meus cuidados com a aparência que vão além da higiene como um hobby, não como uma necessidade ou um definidor de personalidade. Ou seja, vigio o tempo, dinheiro e energia dedicado a isso. Não, não é razoável que as mulheres gastem uma grande fatia de seus salários (que já é menor do que o dos homens) com acessórios e produtos de beleza. Nunca vou me esquecer de uma colega de trabalho (que ganhava muitíssimo bem) contando que estava no vermelho aquele mês por causa do monte de roupa que tinha comprado, sendo que ela já tinha um armário recheado. A declaração foi recebida com muita tranquilidade na mesa. Se fosse um colega homem dizendo a mesma coisa a respeito de, sei lá, sua coleção de vídeo games, acho que o povo tinha se agitado mais, não?

4) faço o mínimo. Acho que jamais voltarei a usar salto alto de novo.

20 comentários:

  1. Nossa, esse é um tema muito legal.
    Também tenho exercitado esse lado de não julgar os outros, principalmente mulheres e tem me feito um bem enorme.
    Eu gosto de maquiagem, e nem por isso me acho menos feminista. É questão de visão, né? Não uso acessórios e roupas tenho evitado comprar, só o necessário mesmo.
    O minimalismo e o feminismo tem me ajudado imensamente.

    beijo grande!

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Dani, o minimalismo e o feminismo também mudaram minha vida. Feliz de saber que somos várias (talvez muitas)!
      Beijos!

      Excluir
  2. Adorei essa sua reflexão e penso de forma parecida. Ano passado, depois de toda a mudança pela qual passei, comecei a me permitir mais e a me preocupar menos com os julgamentos alheios. Acho que todo radicalismo não é saudável, portanto, faço o que eu gosto e o que me faz sentir melhor. Passo esmalte quando da tempo e não fico me martirizando quando não consigo estar com a depilação em dia. Temos tantas regras de como deveríamos ser que enche mesmo o saco ter que estar sempre "impecável". Dispenso. Se der tempo deu, se não der é porque outras coisas eram mais importantes do que isso.

    Depois veja esse texto que tem a ver com o que vc postou: http://www.girlswithstyle.com.br/a-gente-tem-que-ser/

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Se preocupar menos com os julgamentos não tem preço! Acho que é uma das maiores liberdades que a gente pode ter.
      Gostei do texto que você mandou. Parece que o site todo é legal, vou dar uma lida caprichada!
      Beijos!

      Excluir
  3. Eu não sigo a maior parte de tendências de beleza por motivos que não têm nada a ver com o feminismo. Mas durante toda a minha vida a minha postura com relação a coisas de beleza foi bem parecida com o seu ponto 3: hobby. Eu gostava de fazer as coisas por diversão, e não por obrigação. Moda, esmaltes, maquiagem, brincos (eu fazia coleção) eram pra mim como um jogo, que eu adorava jogar quando estava a fim, e não queria me sentir obrigada a fazer quando não estivesse a fim. Mesmo assim, era muito difícil suportar toda a pressão sobre como deve ser a aparência de uma mulher, seja quando eu não estava a fim de "jogar esse jogo", seja quando eu estava a fim de jogar, mas não atingia a "perfeição" (e obviamente eu nunca atingia). É um peso que eu carrego até hoje, mesmo depois de abrir mão de 90% das vaidades por opção de vida. Pensei que quando eu conhecesse mulheres como eu, quando estivesse rodeadas dela, tudo ficaria mais fácil, mas não foi bem assim. É um exercício constante não ceder e não se deixar abater... Os pensamentos "estou economizando tempo e dinheiro para coisas mais importantes e que me fazem mais feliz" (o que é totalmente verdade) e "eu estou fazendo aquilo em que acredito" (pq me recuso a tomar remédios que vão fazer mal ao meu corpo para melhorar a minha pele) me acompanham o tempo todo. Mas a insegurança fica rondando...

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Thais, é um exercício constante mesmo. Você já leu O Mito da Beleza, da Naomi Wolf? Tem aqui pra baixar (http://brasil.indymedia.org/media/2007/01/370737.pdf) e é muitíssimo legal. Talvez te ajude a gerenciar a pressão.
      Beijos!

      Excluir
    2. Não, nunca li! Obrigada pela dica! =)

      Excluir
  4. Depois que eu conheci o feminismo e passei a me informar mais (e melhor!) sobre o assunto, minha opinião mudou bastante. Consigo sentir mais empatia e não apenas julgar a outra mulher. Não ligo se ela quer usar maquiagem e salto pra trabalhar, mas me preocupa quando ela é OBRIGADA a isso pelo emprego.

    Uma vez, entrei numa discussão em um post sobre "maquiagem para entrevista de emprego" onde a pessoa, que se dizia agente de RH, achava que era desleixo uma mulher sem maquiagem e que o mundo é assim e que a gente se conforme. Daí que eu perguntei se o homem era obrigado a aparecer maquiado também ou se ele poderia ser desleixado e ela disse que eles deveriam se barbear e estar com o cabelo arrumado. Tipo, a mesma cobrança, né?

    Você vê tv ou lê uma revista e 1/3 das propagandas é para mulheres. Curas para celulite, para estrias, para rugas, tinta para cabelo porque Deus me livre ter fios brancos, como esconder os sinais de envelhecimento, roupas para fazer inveja nas inimigas...

    Olha, é muito difícil ser mulher nessa vida. E é muito mais difícil quando você decide que não vai se encaixar no "padrão". Agradeço muito ao feminismo e ao minimalismo agora por abrir meus olhos.

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Andrea, também me preocupa muito a mulher ter de ter uma aparência determinada para conseguir emprego. Inclusive porque ela não ganha "auxílio-manicure"!
      É difícil ser mulher nessa vida, sim. Mas acho que quando nós, mulheres, decidimos nos ajudar umas às outras, a coisa melhora!
      Beijos!

      Excluir
  5. Me identifiquei muito com suas palavras e com o que estás fazendo. Também tento me manter no mínimo, ou melhor, naquilo que me faz bem. Por muito tempo gastei tempo e dinheiro em produtos de beleza e etc. Hoje em dia passo a olhar as coisas com outros olhos, quanto mais natural melhor. Se eu tiver que investir em algo será na saúde da minha pele. A e também aboli os saltos altos da minha vida, hahaha!

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Ana Paula, é isso aí. E abaixo os saltos altos, rs!
      Beijos!

      Excluir
  6. O mais difícil é não julgar. Porque mesmo eu achando uma bobagem usar maquiagem e salto, tem gente que usa e gosta, e eu não classificar a criatura automaticamente como uma idiota por isso é um desafio para mim. Ou seja, eu julgo pela aparência também, só que desqualificando quem se preocupa muito com isso, o que é um preconceito (enorme) da minha parte. Eu sei disso, conscientemente eu me policio para não fazer, porque acho que é tão ruim quanto esperar que toda mulher ande maquiada e de cabelo pintado.

    O problema social de ser obrigada a isso é um trabalho de formiguinha. Enquanto não tivermos muitas mulheres em destaque com padrões diversos de aparência não vamos conseguir que os RHs parem de exigir mocinhas arrumadinhas e maquiadas.

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Achei muito legal esse comentário porque já estive dos dois lados.

      Fui uma adolescente que não gostava de maquiagem, roupas, saltos, mas estava sempre ouvindo o quanto eu era desleixada. Quando comecei a trabalhar comecei a usar salto alto e maquiagem, e, surpresa, cheguei a ouvir que me tornara fútil. É como se sempre estivéssemos erradas.

      Ao conhecer o feminismo eu repensei várias coisas e escolhi o que manter, não uso salto alto porque acho desconfortável(mesmo ouvindo que eu "deveria" usar sempre porque só tenho 1,54m) nem maquiagem porque me acho estranha, mas adoro pintar as unhas e estar sempre com uma cor diferente. No começo dessa jornada eu me via julgando as mulheres que se arrumavam, como se elas fossem menos esclarecidas, hoje vejo que foi um erro meu, puro preconceito.

      Eventualmente eu ainda escorrego, mas acho que o importante é não sermos obrigadas a adequar aparência a padrões, se a pessoa quer usar salto 15, seja feliz, apenas quero o direito de usar minha sapatilha.

      Ilka

      Excluir
    2. Pois é, Dani, eu tento pensar nas mulheres que se preocupam muitíssimo com a aparência como quem ainda "não viu a luz", rs. E conversando por aí, já convenci algumas a diversificar seus interesses.

      É concordo com a questão do RH!

      Beijos!

      Excluir
    3. Ilka, eu também tenho essa impressão, de que a gente tá sempre lascada. Não segue o padrão, é desleixada; segue, é fútil.

      A solução é parar de vigiar a aparência das mulheres (assim como não vigiam a dos homens). Até a sociedade inteira mudar, vai demorar, mas a gente vai fazendo a nossa parte.

      Beijos!

      Excluir
  7. Sinceramente de uns tempos pra cá ando bastante confusa sobre o feminismo. Os artigos que leio criticam algumas coisas que já nem sei se sou feminista. Sou evangélica, casada, me depilo, uso batom e anéis, adoro moda. Não acredito que homens são melhores que mulheres e nem vice-versa. Onde me encaixo, gente?

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Ponto, você é feminista se acredita que as mulheres são seres humanos, rs. Ou seja, tem os mesmos direitos que os homens. As primeiras feministas lutaram pelos direitos civis, como capacidade para tomar as próprias decisões, sem precisar da autorização de pai/marido. Hoje a gente luta para ter os mesmos salários e acesso a promoções, para não sermos vítimas de violência de gênero (apanhar/ser morta só pelo fato de ser mulher/ser estuprada) e pela liberdade reprodutiva (ter acesso a anticoncepcionais, não ser julgada por ser comportamento sexual e o aborto ser descriminalizado).
      Importante: você pode ser a favor da descriminalização do aborto e, pessoalmente, saber que jamais faria um. A autorização legal permite que as mulheres escolham de acordo com as suas consciências.
      Então é aí que você se encaixa: se você está com a gente nessa luta, você é feminista. Bem-vinda!
      Beijos!

      Excluir
  8. Adorei seu post, especialmente a parte da "estratégia". Acho que por mais paradoxal q possa parecer (pelo que vou escrever logo abaixo), ainda tenho que evoluir no quesito de enxergar além da beleza, acho que é meio natural para mim me encantar mais com o belo (e digo beleza natural mesmo, não "fabricada")... Por outro lado, nunca entrei muito na ditadura da "aparência" e "moda". Para mim foi sempre bem natural isso, talvez por sentir o valor "liberdade" sempre pulsante. Isso, claro, pesou até na escolha da minha profissão. Sou formada em direito e uma das coisas que me desanimavam na área era justamente essa necessidade de investir no visual. De ter que estar sempre "muito apresentável", porque sim, isso conta muito nessa profissão. Então prestei concurso público (para área não jurídica) e hoje sou feliz da vida! Não que eu ande largada ou não tenha vontade de me arrumar de vez em quando, mas o faço quando quero. Isso é bom demais!

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. só complementando o comentário inicial, acho que meu conceito de beleza , ainda que natural, é influenciado pelo que vemos todos os dias dito como belo na TV e etc. Por isso o ponto 2 do post me chamou muito a atenção...

      Excluir
    2. Evelize, que bom que você se encontrou no emprego e na carreira!
      Então, é difícil não ser influenciado pela mídia, né? Acho bacana ver fotos e relatos de outras épocas e notar que os padrões de beleza (que é sempre tratada como permanente e universal) mudam, ah, como mudam...
      Beijos!

      Excluir