sexta-feira, 25 de outubro de 2013

Preço alto não é sinônimo de qualidade

A discussão sobre pagar mais caro por produtos de melhor qualidade é bastante comum no minimalismo. Embora eu concorde em alguns casos, não são a maioria. É preciso atenção. Explico...

Muitas vezes, principalmente em lugares com muita desigualdade social como é o caso do Brasil, o preço alto reflete mais um posicionamento de mercado do que um maior custo de produção. Não quer dizer que o produto seja de melhor qualidade. Isso porque usar um produto caro confere status para quem o usa. Então a empresa vai e faz exatamente o mesmo produto que se vende ali na esquina, com o mesmo custo de produção, mesmas matérias-primas, e cobra mais caro. Logo logo as pessoas estão comprando só pra mostrar para os outros que elas têm dinheiro.

Vou dar um exemplo concreto para não ficar no campo das ideias: chinelo havaianas. Lá nos anos 1980, era coisa de pobre. Era um chinelo barato, confortável e com muita durabilidade, o que o levava a ser um item básico das camadas mais baixas da população. Mas aí veio a concorrência e as havaianas precisaram partir para novos mercados. Tiveram a ideia de conquistar as classes média e alta, que não queriam ser associadas a chinelos de pobre.

O que eles fizeram: mantiveram exatamente o mesmo produto, mudaram as cores, deram o nome de "Havaianas Top", colocaram uns mostruários bonitos em lojas descoladas (antes eram vendidas em bacias nos mercados), contrataram um pessoal famoso para fazer propaganda e aumentaram o preço. O resultado a gente sabe. Hoje havaianas "todo mundo usa" (que, aliás, era o mote das tais propagandas). Mas o produto é exatamente o mesmo. Mesma qualidade. Preço mais caro.

Foto de divulgação da Havaianas comemorativa de 50 anos. A branca com azul é o modelo original (não tinha, na época, essa placa prateada). A toda azul é o modelo top.

Além disso, muitas vezes o preço de um produto é maior porque ele veio de mais longe, porque se produz em menor escala ou até mesmo porque a matéria-prima é mais escassa ou custosa de trabalhar, o que não quer dizer que ele seja melhor.

Adotar o minimalismo vai contra a corrente, e não é fácil. Então muitas vezes a gente cria desculpas para nós mesmos para manter velhos hábitos. Normal. Como tudo na vida, acho que vale a pena ficar atento e refletir sempre.

23 comentários:

  1. E eu adoro Havaianas, rs... Mas, em questão de qualidade, realmente acho que não tem a menor diferença entre ela e a Dupé, por exemplo.

    Isso me lembrou uma coisa que li uma vez sobre tecidos sintéticos (ACHO que no Oficina de Estilo). A gente acha que usar tecidos naturais é mais chique, mais bonito e até mais ecológico. Mas com os tecidos sintéticos (geralmente mais baratos) a gente precisa se preocupar menos com a manutenção, gasta bem menos energia elétrica na hora de passar (o que é ecológico), mtas vezes duram mais (o que tbm é ecológico)... Sem contar que, pra alguns tipos de roupas, como as de frio, os sintéticos mandam mto melhor que os naturais.

    Mas tecido sintético (fora do contexto esportivo) é "coisa de pobre", hahaha...

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    1. Ei, Thais! Eu acho que a havaianas é melhor sim. Ela dura mais, escorrega menos e é mais confortável. A questão é que ela passou a ser mais cara do que ela mesma, sem mudar nada nessas coisas aí que eu citei. Foi um exemplo só pra mostrar que o preço não tem necessariamente a ver com o preço de produção, que não mudou de um caso para o outro.

      Isso que você falou sobre tecidos sintéticos eu não sabia. MUITO interessante. Vou procurar saber mais sobre isso. Muito obrigada pela dica.

      Beijo!

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    2. Pois é, tô vendo que um monte gente acha as Havaianas mais macias, mais isso, mais aquilo... Eu só gosto delas pq elas são bonitinhas. Acho que tenho pés insensíveis... ;)

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  2. Engraçado que não compro chinelos há um tempo...
    Há uns dois anos atrás ganhei um par num casamento. Agora que tava velho, quase arrebentando ganhei outro em outro casamento!
    Ô beleza!

    Mas é verdade mesmo isso de que preço caro não é sinônimo de qualidade.

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    1. Eu gosto bastante de havaianas. É até sacanagem eu ter dado esse exemplo porque parece que eu estou falando que elas são de má qualidade, o que não é verdade. É só para mostrar que algo pode ser de boa qualidade e barato (como é o caso do modelo anterior) e também que o preço não depende da qualidade em si.

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  3. É, em vestuário e sapato tem muito disso. Aliás, não tem coisa que eu odeie mais, na minha vidinha de consumidora, do que comprar algo pagando caro, com a expectativa que dure muito e a coisa se desmanchar depois de meia dúzia de lavagens. Quando a coisa saiu barata, eu não espero que dure, então até não me importo muito.

    As havaianas realmente tem uma diferença de preço bem grande, tem algumas linhas que são bem mais caras. Mas elas não são exatamente iguais às antigas, as atuais são mais macias. Não que eu ache que isso justifique a diferença de preço (eu tinha uma muito antiga até uns tempos atrás e ela tinha as tiras e o solado bem mais duros que as mais novas).

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    1. É triste mesmo quando isso acontece, Daniela. Eu fico com muita raiva. Ainda bem que eu não sou e nem nunca fui de comprar coisas muito caras, mas já passei por umas surpresinhas desagradáveis também.

      Eu gosto das havaianas. Acho melhor do que as concorrentes e é a marca que eu uso. E hoje em dia tem vários modelos e parece que materiais diferentes também. Mas, na época que lançaram a top com o preço maior, ela era do mesmo material que a antiga. Depois, com o tempo, foram mudando e criando outras várias linhas...

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  4. Boa reflexão essa sua, Fernanda. Concordo com você. Tenho visto o maior bafafá sobre umas camisas de renda que o pessoal compra na China por 10 dólares e revende por R$200 conto. Acho uó. Eu comprei algumas coisas na China, mas hoje, pensando melhor, não sei se compraria mais. Pelo fato do trabalho escravo de lá, é claro. Essa semana tambem li uma matéria que falava sobre uma loja chique que compra suas peças no bom retiro e revende 10x mais caro!

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    1. Hahaha... Pois é, Bruna. Isso acontece muito e também acho uó. Essa questão do uso de trabalho escravo é outra a ser considerada também. Consumir é complicado. A gente nunca sabe direito os efeitos e as consequências do nosso consumo...
      :/

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    2. O engraçado é que deixamos de comprar diretamente na china pagando menos e compramos nas lojas de departamento que importam de lá e ainda cobram impostos absurdos. Fica bem difícil pagar um preço legal.

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    3. Sim. É bem difícil. Por isso que eu prefiro consumir o mínimo possível. Acho que é o melhor que dá para fazer, infelizmente.

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  5. Adorei a reflexão, um dos motivos é que ando pensando justamente nisso nos últimos tempos. Já faz algum tempo que eu me encantei com a maquiagem, e desde então adoro ler blogs a respeito, o problema é que a maioria deles se baseia muito mais em compras (e resenhas) infinitas, em determinar que você PRECISA daquilo para fazer uma maquiagem legal e que é praticamente fato que maquiagem mais cara é muuuuito superior que as maquiagens mais baratas, inclusive muitas dizem que é melhor ter poucas coisas, mas de marcas high end, do que muitas de marcas baratas.

    Confesso que na minha penteadeira a maioria das maquiagens ficam na categoria de "caras", mas tudo eu comprei em promoção por um preço "ok" ou ganhei de presente. Mesmo assim, conforme minhas coisas forem acabando, não vou repor com produtos de luxo, vou comprar o que eu acho bom e com o melhor preço que tiver. Minha base acabou e me recuso a pagar mais de R$150 por 30ml de produto.

    Consumo é uma coisa que me ainda me deixa muito confusa, pois quero simplificar e comprar da maneira mais inteligente possível, mas daí vou em lojas mais caras esperando que o produto seja de maior qualidade e produzido aqui no Brasil e o que eu encontro na etiqueta? MADE IN CHINA. Acabo comprando a mesma peça em lojas mais baratas, mas sempre fico a refletir a trajetória desse produto, os empregados que trabalharam e quanto ganharam (ou deixaram de ganhar) para que aquele produto chegasse nas minhas mãos.

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    1. É complicadíssimo mesmo, Renata. Também sinto a mesma coisa. É difícil saber o que tem de verdade por trás da propaganda. No campo das maquiagens é mais complicado ainda, porque a gente sabe que as resenhas e muitos dos blogs hoje em dia ganham para falar bem dos produtos. Mas aí como que a gente vai saber de verdade o que é bom? Vai experimentar tudo? Complicado...

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  6. Como alguém comentou ali em cima, essa coisa de roupas na China é bem complicado. Acho péssimo comprar por um preço ínfimo com mão de obra escrava, mas também considero inaceitável comprar essa mesma peça 10 x mais cara no shopping sem garantias de um processo de produção não-duvidoso, vide Zara, ou mesmo a Marisa mesmo com seus preços menores.
    O que acaba acontecendo, as vezes por pura desinformação nossa - já que não dá pra cobrir um consumo totalmente consciente, em todas as esferas - é a compra "enganada", até mesmo dos tais das tais réplicas/cópias de produtos de grife. Já cheguei a comprar sapatos baratos e descobrir depois que eram cópias, mesmo dizendo que não suporto pirataria.

    E quanto às havaianas, bem, a edição comemorativa da foto que ilustra o post custa 50 reais. Não sei bem como são produzidas, mas realmente acho um preço meio abusivo, o que não me impediu de comprar uma, considerando que a renda delas foi destinada pra Unicef. O que é mais ou menos a mesma situação das roupas chinesas, até que ponto é 'legal' comprar algo caro (ou barato) de acordo com o impacto que isso vai gerar, seja 'banal', como só o status do item, ou mesmo mais complexo, como a mão de obra escrava, meio ambiente, testes em animais, doação de dinheiro das vendas, etc.

    Ops, acho que ficou grandinho, e talvez tenha até fugido do tema do post.

    Desculpa, Fer.
    Me empolguei.

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    1. Não precisa pedir desculpa não, Laís. Pelo contrário. Eu agradeço pelo comentário e pela discussão.

      É complicado mesmo. A gente não tem informação o suficiente para fazer compras conscientes, porque quem está vendendo algo vai sempre ressaltar suas qualidades e esconder seus pontos negativos. E como sustentabilidade está em voga, toda empresa vai dizer que é assim.

      Além disso, por mais que a gente tente fugir de pirataria e exploração, não tem muito o que fazer. Até se você comprar o pano e costurar a própria roupa, esse pano pode vir de uma fazenda lá na China com mão de obra escrava. E aí? Para onde fugimos?

      Acho que o melhor é consumir menos mesmo. Não vejo outra solução :/

      Beijo!

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  7. Lais, gostei do seu comentario. Estou passando pelos mesmos problemas. Decidi que, sendo o produto ecologicamente correto ou nao, produto de mao de obra escrava ou nao, se eu consumir o estritamente necessario e me controlar nos rompantes de consumo (ao ver uma liquidacao de 70%off, por exemplo, ou numa viagem ao exterior com os souvenirs e etc), se nao vou estar ajudando mto, pelo menos nao estarei atrapalhando tanto, na nova forma de consumir que, inevitavelmente, vamos ter que adotar.

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    1. Concordo totalmente, Luciani! É a única solução que eu vejo também.

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  8. O lance é consumir menos. É saudável para nosso bolso, e para o planeta... Quanto ao preço, realmente existem muitos produtos caros e ruins. Mas ainda existem fabricantes que zelam pela qualidade de seus produtos. Nesses casos, acho melhor pagar mais, e ter uma coisa que vai durar muito, muito tempo.
    Está cada vez mais dificil achar essas coisas, mas existem sim. As camisetas da Lacoste, por ex, aguentam anos de uso sem criar bolinhas nem deformar a gola, nada. Uma boa bota de couro é companheira para muito invernos.
    O que percebo é que mta gente nem quer que as coisas durem. Querem logo comprar outra coisa, uma novidade.
    Saindo da área de moda, essa diferença entre produtos bons e ruins fica ainda maior. Existem móveis descartáveis, panelas que não duram nada. No entanto, um sólido móvel de madeira, uma boa panela de aço duram literalmente uma vida.
    Provavelmente a camiseta que não dura e a camiseta que dura tem o mesmo custo ambiental. Mas na peça durável esse custo é diluído no tempo de uso. Assim como o preço.

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    1. Exatamente, Vania! Eu acho que consumir menos é o ideal. E também acho que tem produtos de melhor qualidade e que duram mais, e que seja melhor comprá-los. No post, eu só quis dizer que nem sempre um produto caro é um produto de melhor qualidade, e vice versa. É preciso mais atenção e critério para descobrir o que realmente é de qualidade, na hora de fazer uma compra.

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  9. Concordo plenamente. Inclusive, ficando claro que, se preço alto não é sinônimo, também não é antônimo. Importante, mesmo, é ter critério. Há produtos simples e até descartáveis que me atendem, mas há alguns que eu quero os melhores possíveis, para que durem muito e eu não precise comprar tão cedo. Nesses casos eu aplico algumas "regras" pessoais: tentar evitar grifes, evitar moda, comprar a vista com desconto E em promoção. Claro, exige uma disciplina, foi dolorido acostumar, mas compensa muito. Imagine esperar até seis meses pra comprar algo... Outro ponto importante: primeiro eu escolho produtos que atendam minhas necessidades (especificações, características, etc.) e só depois busco preço e só abro a carteira quando atinge um valor que defini antes. Se eu não escolher, os publicitários vão tentar fazer isso por mim, e eu não acredito que eles entendam mais de mim que eu...

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    1. EXATAMENTE, Anderson! Concordo com tudo que você falou e procuro agir do mesmo jeito na hora de comprar. Eu quis dizer foi isso mesmo no post. Que é preciso atenção na hora de fazer escolhas de consumo.

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  10. A marca que logo veio à minha mente com esse post foi a Osklen, que procura passar uma imagem "cool", "desencanada": fico chocada cada vez que vejo um trapinho sendo vendido por 300/400 reais...

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    1. Que absurdo! Já vi essa loja em shoppings, mas nunca entrei. É o caso clássico mesmo do que eu quis dizer. Obrigada ;)

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