segunda-feira, 26 de outubro de 2015

É preciso gastar dinheiro para virar minimalista? - Parte 2

Os comentários do último post trouxeram outras dimensões para a discussão que achei importante compartilhar. 

"Quanto à questão de se livrar de um monte de coisas e depois precisar de UMA delas, acho que é um efeito colateral aceitável. Até porque, se a gente tem muito menos objetos para limpar, cuidar, guardar e manter, isso acabando gerando uma economia (que pode ser imensa se você se mudar para um apartamento menor ou abrir mão de um carro). Aí, recomprar UM dos itens que você não tem mais me parece bem razoável." Lud

Além do que, se é algo que você vai precisar usar uma vez, talvez seja melhor tentar pegar emprestado com alguém. Outro lado da questão é que, se a gente guardar tudo que pode um dia potencialmente quem sabe talvez precisar na vida, vai ter tanta coisa que pode nem achar o que precisa quando precisa. Já contei um caso aqui.

"Agora está em alta o ´armário cápsula´, que parte de um conceito bacana: não precisamos ter tanta roupa, nem tanto sapato, nem tanto de nada. (...) E o que temos hoje? Um monte de gente montando seus armários cápsula, mas pra fazer isso querem comprar as 40 peças novas... 'Descobrem' que pra montar o AC precisam de uma camiseta cinza, outra branca e preta, umas sapatilhas básicas - e que dane a proposta de reduzir o consumo." Vania Lacerda

É o caso clássico do minimalismo usado como desculpa para consumir. A gente não precisa trocar tudo e estar com um armário minimalista do dia pra noite. A ideia é ir usando esse crivo na hora de comprar coisas novas, e de decidir o que doar quando se tem excesso.

"Percebo muitos blogueiros e youtubers seguindo esse tipo de lógica. Parece que o que existe de mais atraente no minimalismo é justamente a cartela de cores reduzida, design simples, novidades tecnológicas etc. (...) By the way, o movimento artístico minimalista dos anos sessenta era intensamente colorido nas obras de Donald Judd e Dan Flavin, por exemplo. Essa parada de preto e branco minimalista tem nada a ver..." Marianna Pedrini Bernabé

Por ser um termo não muito bem definido, o minimalismo pode ser entendido como diversas coisas mesmo: esse movimento artístico dos anos 1960, essa onda de decoração baseada no branco e preto (não sei direito como surgiu) e essa filosofia/estilo de vida sobre a qual falamos aqui.

Por essa confusão toda eu gosto sempre de ressaltar o que chamamos de minimalismo aqui no blog (e por isso está no título). E, de acordo com esse conceito que a gente segue, cores são bem vindas; e o consumo deve ser sempre consciente.

16 comentários:

  1. Ótima reflexão! Tento adotar o estilo minimalista há mais de dois e confesso que, no início, fiquei tentada pelo consumismo de "artigos minimalistas". Hoje é diferente, mas a luta ainda é grande. Adoro seu blog. Me inspirou a contar minha própria história #tamojunto

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  2. Nossa, que surpresa! rs

    Concordo com a reflexão da Lud e da Vania também. Não acho tão problemático precisar readquirir um objeto que se mostrou necessário depois de um tempo (desde que isso seja pouco frequente, claro), assim como desconfio muito dessa estratégia "itens essenciais" de um armário capsula. A questão, como você disse, é de um consumo consciente e se volta muito mais para o como comprar do que necessariamente o que comprar.

    Só havia citado esse movimento artístico porque vejo algumas associações absurdas por aí. Também gosto de padrões geométricos e formas simples (além de tentar seguir essa filosofia de vida), mas entendo que esse novo minimalismo diz respeito apenas a um padrão comportamento que confronta o consumo desenfreado.
    Já a construção de uma identidade visual fica a critério do "minimalista" em questão, rsrs.

    Ainda assim, acho que a pessoa que deseja fazer essa associação precisa estudar o movimento artístico em si (onde está o cerne de algumas dessas escolhas estéticas), assim como o "novo minimalismo" para não interpretá-los equivocadamente e acabar gastando dinheiro com bobeira.

    Adoro seus textos, Fernanda! Abraço!

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    1. Oi, Marianna! Gostei muito do seu comentário e por isso quis compartilhar. E é sempre bom trazer referências como essa do movimento artístico pra gente refletir.

      Concordo com a importância de estudar o movimento. Inclusive, vou fazer isso. Obrigada pela reflexão.

      Fico feliz que você goste dos textos e agradeço demais o carinho e os comentários, viu? De verdade.

      Abraço!

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  3. Gostei muito das suas reflexões e a do pessoal que comentou. Quem gosta de arquitetura e moda minimalista nem sempre leva o estilo de vida minimalista. O que estamos falando é de estilo de vida. Simplificar, priorizar, aproveitar o tempo e a vida.

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    1. Exatamente, Pri. Vou até estudar um pouco a arquitetura, a moda e o movimento artístico. Pode dar umas boas ideias. Mas realmente são coisas distintas.

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  4. eu gostei de como ela esclarece sobre o minimalismo nesse vídeo: https://www.youtube.com/watch?v=tEP-28WtfoA

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    1. Muuuito bom. Bem didático. Obrigada pela dica. Vou guardar esse assunto, e refletir mais sobre ele. Talvez eu consiga fazer um post mais claro sobre o assunto. Obrigada :)

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  5. Concordo que uma coisa é estilo de vida minimalista, outra são os movimentos artisticos, e outra ainda é a estética. Sobre a estética da decoração e arquitetura minimalista: isso do branco, formas puras e poucos elementos surgiu no pos-guerra. Na época a moda ainda eram ambientes com decorações que estavam ali so pra enfeitar, sem valor funcional. Mas ja começavam a surgir modernidades como elétrodomésticos, e acabava custando mais ter que disfaçar esse elementos modernos tentando embuti-los em uma decor mais pomposa.

    Por isso alguns arquitetos começaram a estudar essa nova vertente: "E se so fossem usados elementos realmente necessarios?" (diminuição de custos devido ao pos-guerra e a economia em crise) Aproveitanto isso, porque não deixar evidente a forma e a função do objeto ou ambiente, com linhas mais puras (que são mais valorizadas com a cor branca). Alem disso por causa da revolução industrial surgiam novos materiais e novas formas de confecciona-los e era interessante mostrar o material cru, ao inves de cobrir com papel de parede ou pintura por ex.

    Sugiro dar uma olhada na obra de Le Corbusier, e Ludwig Mies van der Rohe. O Mies foi o autor da frase chave de todo o movimento (e estilo de vida) "menos é mais".

    Muito interessante a dicussão, como sempre :)
    Abraços

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    1. Claro que eu fiz um resumo do resumo, mas acho que esse assunto tem tudo a ver com o estilo de vida minimalista, afinal onde vivemos influencia nosso comportamento. E também porque amo a minha area :)

      Outro ponto interessante é que esses arquitetos europeus do pos-guerra foram buscar inspirações na linguagem da arquitetura e estética japonesa. E realmente, o minimalismo sempre foi forte no Japão, desde a arquitetura classica, acredito que tenha relação com o budismo e o desapego.

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    2. Off topic: Ana, depois da sua fala tive até vontade de retificar a minha, pois é possível encontrar essa estética simples também dentro de outros movimentos artísticos no decorrer do séc. XX (suprematismo, construtivismo, De stijl e neoplasticismo e, mais recentemente, arte op, a nova abstração etc.), mas infelizmente não posso chamar esses movimentos de "minimalistas" como se todos eles partilhassem um aspecto formal comum, ainda que genérico. Dentre muitas outras questões, se uso desse termo redutor já é contestado para falar dessa específica arte nos anos 60, imagine o estrago quando aplicado em maiores proporções.

      Se me referir à influência da linearidade japonesa na pintura européia do fim do séc. XIX como "minimalista", então, saio daqui ovacionada pelo primeiro professor de arte ler. rsrs

      Além disso, concordo com você que há pontos coincidentes entre o estilo de vida e a estética minimalista, mas acho que é uma associação que deve ser feita com cuidado. Só o isolamento desse termo já é problemático - acho até que vou suspender seu uso em alguns pontos para evitar confusões e usá-lo apenas informalmente, como simples adjetivo.

      Anyway, adorei as referências e fico feliz de ver discussões como essa.

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    3. Gente, muito obrigada pelas contribuições. Vocês realmente aprofundaram o assunto e trouxeram um monte de informações que eu não tinha. Obrigada mesmo! Muito informativo e inspirador.

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  6. Oi Fernanda!
    Peço desculpas adiantadas pelo comentário meio nada a ver com o post. Eu tenho 14 anos e tenho aprendido um pouco sobre o estilo de vida minimalista de desapego e tal, principalmente com os textos do blog. O problema é a hora de colocar em prática: tenho pais muitos acumuladores que, quando me vem levando livros, roupas, brinquedos pra doar (rolam umas campanhas de doação bem legais na minha escola, principalmente mais pro fim do ano), não entendem direito. Fica aquilo do "mas pra que doar?", "mas isso foi caro", 'mas você pode precisar algum dia" e por aí vai. O que realizei de desapego e doação até agora foi bem libertador, mas acho que meus pais (principalmente minha mãe) estão dificultando um pouco o processo, e as vezes acabam me convencendo a ficar com objetos que nem uso mais. Será que eu tô indo rápido demais? E como explica pra eles essa mudança que eu quero pra minha vida?

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    1. Não tem motivos para pedir desculpas. Adorei seu comentário e fiquei até emocionada de recebê-lo. Desculpa a demora para responder. Minha vida anda meio corrida.

      Que bom que você conseguiu ter essa consciência tão cedo na vida. Eu acredito mesmo que uma vida com desapego é mais fácil e feliz, e você já está começando nesse caminho mais cedo,

      A gente encontra resistência mesmo, e a da família é sempre a mais forte e constante. Eu acredito que o caminho é conversar e ir aos poucos, sabe? Vai doando aos poucos, e explicando para os seus pais que você já leu o livro, que não vai precisar de novo e que, se precisar, pega na biblioteca. Aos poucos eles irão entendendo. Mas é um trabalho de formiguinha. Vai com calma e paciência.. Boa sorte ;)

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  7. Estou passando por um momento bem delicado e já li esses dois posts um monte de vezes. No início do ano descobri um problema de saúde que me fez precisar sair da fraternidade em que eu vivia. Eu precisava ter uma vida mais calma do que a que eu conseguia levar lá, e meus superiores pensavam que de fato seria melhor se eu saísse. Então, em vez de me dedicar 100% a isso, estou tentando levar "uma vida normal" e ajudar como voluntária. Mas esse processo de "voltar para o mundo", mesmo tendo sempre o minimalismo em mente, foi (e ainda está sendo) bem confuso. As minhas roupas eram limitadas àquele contexto, e eu precisava de roupas novas. Eu não tinha mais nada de acessórios ou maquiagem. Por um tempo fiquei com as roupas velhas da minha irmã e tentei criar adaptações com o que eu tinha, mas... Simplesmente não ficava bom. Por tudo isso, nos últimos meses comprei muita coisa, que ainda vou pagar por um tempo. Sempre com a desculpa de que é (mais uma) fase de transição e de que em breve eu vou parar de comprar. Sempre escolhendo cada peça pela versatilidade e funcionalidade, e abrindo mão de certos gostos por terem o uso mais restrito. Tentando, sempre que possível, escolher lojas e marcas pela sua responsabilidade e ética. Eu me pergunto o tempo todo se o que estou fazendo é legítimo ou se estou só encontrando desculpas pra enfiar o pé na jaca. Sinceramente, eu não sei. Espero descobrir logo.

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    1. Ei, Thais! Sinto muito em saber do seu problema de saúde. Muito mesmo. Que bom que você está conseguindo lidar com ele. Sua situação é bem específica e você não precisa se sentir culpada de precisar comprar algumas coisas. Eu vivi isso quando saí da casa da minha mãe e precisei comprar tudo, porque não tinha nada. Pelo pouco que eu te conheço, seus valores não combinam com enfiar o pé na jaca. Vai com calma, aos poucos, percebendo aos poucos o que você precisa mais, o que dá certo. E se perdoe se errar uma vez ou outra também. Boa sorte ;)

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